Gritzbach detalhou extorsão de R$ 30 milhões por policiais civis

Gritzbach detalhou extorsão de R$ 30 milhões por policiais civis

Brasil — Quatro meses antes de sua morte no Aeroporto Internacional de Guarulhos, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach fez um depoimento em vídeo que expôs um esquema de extorsão envolvendo policiais civis do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Este registro foi gravado em 16 de julho de 2024, durante sua colaboração premiada com o Ministério Público de São Paulo (MPSP), revelando cobranças de milhões e apropriação indevida de bens.

Gritzbach, que enfrentava acusações de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), foi assassinado em novembro, na presença de várias testemunhas. Seu depoimento aos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) incluiu detalhes sobre o relacionamento corrupto entre policiais e criminosos, focando especificamente em corrupção policial.

As Acusações e o Papel dos Policiais

Durante sua detenção em fevereiro de 2022, em meio a investigações sobre assassinatos relacionados ao PCC, o corretor relatou pressões para pagar sumas exorbitantes a agentes da lei. Gritzbach citou diretamente o delegado Fábio Baena e o chefe de investigadores Eduardo Monteiro, indicando que o delegado lhe recomendou um advogado, Ivelson Saloto. Após algumas interações, o advogado comunicou a Gritzbach que a exigência da polícia estava entre R$ 30 milhões a R$ 40 milhões, alegando a existência de um pendrive com chaves de contas em criptomoedas, o que Gritzbach negou ter.

Desesperado, o corretor autorizou seu advogado a oferecer entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, sua totalidade financeira, para tentar evitar que sua prisão fosse prolongada. No entanto, a proposta foi recusada pela polícia, que afirmou já ter recebido valores de terceiros, inviabilizando a liberação independente do oferecimento.

Documentação e Provas Apresentadas

Em seu depoimento, Gritzbach se precaveu ao fornecer aos promotores áudios, comprovantes, escrituras e relatórios demonstrando como os policiais tomaram posse de seus bens pessoais durante as buscas. Um dos bens, um sítio em Biritiba Mirim, foi avaliado em R$ 1,5 milhão e, embora registrado em nome de outra pessoa, Gritzbach provou ser o verdadeiro proprietário. Ele informou que o contrato do imóvel foi apreendido de forma não oficial em sua residência, e posteriormente o sítio começou a ser negociado por Rogerinho, um dos policiais envolvidos.

Dentre os bens retidos, Gritzbach ainda citou o desaparecimento de quatro relógios Hublot, avaliados em cerca de R$ 180 mil. Durante sua prisão, 14 relógios de luxo foram levados sem uma documentação formal de apreensão, e apenas 10 foram devolvidos. Os quatro restantes teriam sido armazenados pelo investigador Eduardo Monteiro, que meses depois foi informado que suas peças estavam sendo revendidas no mercado paralelo.

A Importância da Delação e suas Consequências

A delação de Gritzbach, mesmo após sua execução, se tornou um ponto crucial na luta contra a corrupção policial e a infiltração do crime organizado nas forças de segurança. Em decorrência disso, uma operação entre a Polícia Federal e o MPSP culminou na prisão do delegado Fábio Baena e do investigador Eduardo Monteiro em dezembro de 2024. Rogerinho, inicialmente fugitivo, se entregou em sequência.

Em 31 de março deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, revogou a prisão preventiva de Fábio Baena, permitindo sua libertação sob severas medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e o pagamento de fiança no valor de R$ 100 mil, além do afastamento definitivo de suas funções públicas. A saga de Antônio Vinícius Gritzbach ilustra não apenas os riscos da colaboração premiada, mas também os embates entre o crime organizado e a integridade das instituições brasileiras.