O recente ataque conjunto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultou na morte do Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, e de altos oficiais do governo, não apenas incendiou o Oriente Médio, mas também abriu uma fissura profunda na coesão dos BRICS. Este bloco, que passou por um robusto processo de expansão em 2023, enfrenta agora seu maior teste de sobrevivência política, com membros em lados opostos da retórica de guerra.
Enquanto o grupo historicamente buscava manter uma fachada de unidade contra o “unilateralismo” ocidental, a gravidade dos ataques de sábado (28/2) e as retaliações iranianas subsequentes dividiram o bloco em dois campos distintos.
Posicionamento Divergente dos Membros
De um lado, Brasil, China e Rússia condenaram diretamente a ofensiva liderada por Donald Trump. O governo brasileiro, através do Itamaraty, classificou a ação como inaceitável, destacando que o uso da força interrompeu processos de negociação em curso. Além disso, Vladimir Putin e a chancelaria chinesa também elevaram o tom, considerando o episódio como uma violação “cínica” e “grave” da soberania internacional.
Por outro lado, a Índia e os novos membros árabes — Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — se alinharam pragmaticamente com os interesses de segurança regionais e ocidentais. Esses países evitaram críticas diretas aos EUA e Israel pelos bombardeios iniciais e direcionaram suas condenações para os mísseis disparados pelo Irã, que violaram a integridade territorial saudita e emirática.
Relações e Interesses em Jogo
Para entender a extensão do racha, é crucial observar as motivações específicas de cada ator principal:
Rússia e China: Ambas as nações mantêm laços vitais com Teerã. A Rússia, por exemplo, depende de drones iranianos para a guerra na Ucrânia, enquanto a China é a maior compradora do petróleo persa. Para ambos, o enfraquecimento do regime iraniano representa uma perda estratégica significativa.
Brasil: O país atua sob a ótica da diplomacia tradicional e do Direito Internacional, condenando o assassinato de um chefe de Estado em exercício, mas tentando equilibrar o discurso ao se solidarizar com as monarquias árabes afetadas pelas retaliações.
Índia: Sob a liderança de Narendra Modi, a Índia desfruta de uma “lua de mel” militar com Israel e mantém parcerias estratégicas com Washington, o que limita uma condenação aberta aos aliados ocidentais.
Arábia Saudita e Emirados Árabes: Embora façam parte dos BRICS junto com o Irã, estes países são rivais históricos de Teerã e dependem do guarda-chuva de segurança norte-americano.
A Fragilidade da Coesão do Bloco
Diferentemente de 2025, quando o bloco havia conseguido emitir uma nota conjunta sobre tensões anteriores, a atual presidência rotativa da Índia e a escalada da crise inviabilizam qualquer consenso. Interlocutores do governo brasileiro admitem que não há previsão de uma declaração unificada.
Especialistas apontam que a volta de Donald Trump à Casa Branca alterou o cenário dos membros do bloco. Com a imposição de tarifas globais e uma política externa imprevisível, cada nação parece priorizar sua sobrevivência bilateral em detrimento de uma estratégia coletiva. O “think tank” Brics Policy Center sugere que o bloco está deixando de ser um ponto central da política externa de seus membros, que agora operam de forma isolada para mitigar danos econômicos e militares.
A crise expõe uma verdade incômoda para os entusiastas do Sul Global: os BRICS não são e não pretendem ser uma aliança de defesa como a OTAN. A inclusão de países com conflitos históricos, como Irã e Arábia Saudita, conferiu ao grupo maior peso econômico, mas paralisou sua capacidade de resposta política em momentos de guerra. O que se observa hoje é um grupo que, diante do fogo real, se fragmenta, refletindo o peso de suas próprias contradições geopolíticas.
