Amazonas — Durante anos, o Amazonas conviveu com uma realidade literalmente escura: apagões, oscilações, incêndios em postes e uma rede elétrica marcada por problemas que atravessaram diferentes períodos da história do estado. Essa realidade, porém, está prestes a mudar, com novos investimentos e modernização da infraestrutura elétrica transformando uma rede que acumulou anos de dificuldades e agora passa por uma recuperação em larga escala.
Os problemas não começaram recentemente. Documentos regulatórios, balanços financeiros e registros de órgãos de fiscalização mostram que a fragilidade do sistema de distribuição do Amazonas se acumulou ao longo dos anos, com interrupções recorrentes, dificuldades operacionais e uma deterioração financeira que impactou a antiga concessionária. A própria Amazonas Energia reconheceu, em seu relatório de 2025, a existência de “graves problemas estruturais acumulados ao longo do tempo”.
Uma crise elétrica em evolução
A situação atingiu um dos momentos mais críticos durante o período em que a Amazonas Energia esteve sob o controle do grupo Oliveira Energia, ligado ao empresário Orsine Rufino de Oliveira. A privatização da distribuidora ocorreu em 2018, quando um consórcio formado por Oliveira Energia e Atem assumiu o controle da empresa, com a expectativa de recuperação. No entanto, os anos seguintes foram marcados pelo agravamento do endividamento e dificuldades para sustentar a operação econômica-financeira.
No encerramento de 2025, a Amazonas Energia registrava R$ 12,047 bilhões em dívida bruta, dos quais R$ 11,421 bilhões correspondiam a obrigações com a Eletrobras. A deterioração financeira foi acompanhada de perto pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que, mesmo após a desestatização, registrou que a Amazonas Energia não havia alcançado níveis sustentáveis do ponto de vista econômico-financeiro. Em setembro de 2022, a concessionária recebeu termo de intimação sobre falhas que poderiam levar à caducidade da concessão devido à falta de condições econômicas para manter a prestação do serviço adequada.
Enquanto a situação financeira se deteriorava, os problemas operacionais continuavam aparecendo em diferentes municípios do Amazonas. Em Tefé, o Ministério Público do Amazonas contabilizou 477 interrupções no fornecimento de energia em apenas 18 meses, entre 2024 e o primeiro semestre de 2025. O número foi considerado grave e incompatível com os padrões de qualidade exigidos pela Aneel, levando a recomendações para investimentos estruturais e um plano de contingência.
No interior, queimadas também provocaram danos expressivos. Em 2023, a Amazonas Energia informou que 230 postes foram destruídos pelo fogo em 23 municípios. Na capital, ocorrências envolvendo a rede elétrica se repetiram. Em agosto de 2024, um incêndio atingiu a fiação de um poste no bairro Adrianópolis, e o Corpo de Bombeiros apontou um curto-circuito como a possível causa. Em maio de 2025, uma explosão seguida de incêndio na Subestação Aparecida, na zona Sul de Manaus, também provocou interrupções no fornecimento. Dois meses antes, em março, um apagão de grandes proporções afetou milhões de consumidores em Manaus e municípios da Região Metropolitana.
Rumo à modernização e recuperação
Diante desse histórico, iniciou-se um processo de reestruturação da concessão. Em 2024, o Governo Federal adotou medidas para enfrentar as dificuldades da Amazonas Energia e criar condições para reorganizar a operação. O processo avançou até a mudança de controle da distribuidora. Em 10 de abril de 2026, a Âmbar Energia assumiu oficialmente a Amazonas Energia, dando início a uma nova fase na concessão. A nova gestão focou na recuperação da estrutura e na modernização do sistema de distribuição.
A modernização chega em um momento de pressão crescente sobre o sistema. Em 14 de setembro de 2026, Manaus atingiu 1.997,1 MW de demanda, um novo recorde histórico, superando os 1.980 MW registrados em agosto. O período de estiagem também aumentou a pressão sobre a infraestrutura, com dados do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas indicando que, entre janeiro e 9 de agosto de 2026, Manaus registrou 564 incêndios florestais, um aumento de aproximadamente 324% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Esse cenário revela o tamanho do desafio, mas também marca uma mudança de perspectiva. A rede que durante anos conviveu com problemas financeiros, operacionais e estruturais passa agora por um processo de recuperação acompanhado de investimentos de grande escala. A realidade que por tanto tempo deixou Manaus no escuro começa, portanto, a ganhar um novo horizonte. A modernização da infraestrutura não representa apenas a substituição de cabos ou equipamentos, mas uma tentativa de recuperar uma rede que acumulou problemas ao longo dos anos, preparando-a para atender uma cidade que cresce, consome mais energia e exige um sistema cada vez mais seguro e eficiente.
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