Efeito cascata: Como a guerra no Irã eleva o custo de vida no Brasil

Efeito cascata: Como a guerra no Irã eleva o custo de vida no Brasil

Brasil – O otimismo que embalava as projeções econômicas brasileiras para o primeiro trimestre de 2026 encontrou um obstáculo geopolítico incontornável. A recente escalada militar no Oriente Médio, marcada por ofensivas coordenadas dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desde o final de fevereiro, materializou o maior receio da equipe econômica do Brasil: o choque global nos preços da energia.

Na segunda-feira (9), o barril de petróleo Brent — referência global — atingiu o pico de US$ 119,50, ultrapassando com folga o teto de US$ 100 que o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, havia classificado como um “divisor de águas” para o impacto inflacionário no país. Embora o preço tenha recuado para US$ 93,07 na manhã de terça-feira (10), o salto acumulado de 35,5% em apenas um mês já produz ondas de choque na economia real.

A crise expôs a vulnerabilidade das cadeias de suprimento globais. O Estreito de Ormuz, área central da tensão, é a artéria por onde escoam 13 milhões de barris diários — cerca de 31% do petróleo transportado via marítima em todo o mundo. A ameaça de fechamento dessa rota causou uma reprecificação imediata nos mercados globais.

A capilaridade da inflação: do frete à tomada de energia

O canal de transmissão mais rápido dessa crise para o consumidor brasileiro ocorre pelas bombas de combustível, mas o impacto vai muito além de quem possui veículo próprio.

O Brasil é um país cuja matriz logística é profundamente dependente das rodovias, que respondem por cerca de 80% da movimentação de cargas. Quando o diesel sobe, o repasse para o valor do frete é quase automático. Esse encarecimento atinge em cheio:

  • Alimentos e Bens de Consumo: Elevando os preços nas prateleiras dos supermercados.
  • Indústria: Aumentando o custo de insumos derivados do petróleo, como resinas plásticas.
  • Energia: Pressionando as contas de luz caso o país precise acionar termelétricas (movidas a combustíveis fósseis) durante períodos de estiagem.

Segundo especialistas da FGV Ibre, essa dinâmica de curto prazo tem força suficiente para paralisar ou reverter a trajetória de queda da inflação que vinha sendo observada.

O duro golpe no Agronegócio

O agronegócio, motor vital do PIB brasileiro, encontra-se duplamente exposto ao conflito. Além da alta do diesel, o setor enfrenta uma crise iminente nos custos de insumos agrícolas.

O Brasil importa até 85% dos fertilizantes que utiliza. Cerca de um terço da ureia importada tem origem no Oriente Médio. Ataques recentes por drones que paralisaram plantas de gás no Catar já forçaram o preço da ureia a subir mais de 10% em poucos dias.

Para o produtor brasileiro de soja e milho, a matemática é implacável: calcula-se que a cada 10% de aumento somado nos preços dos fertilizantes e do diesel, o custo de produção salta cerca de 5%. Há ainda o risco para as exportações, uma vez que o Oriente Médio consome parcelas significativas da produção nacional (14% do açúcar, 9% do milho e 8% do frango). O único contrapeso atual recai sobre o setor sucroenergético, que vê o etanol ganhar forte competitividade frente à gasolina encarecida.

Repercussões nas Decisões do Copom e Petrobras

O cenário macroeconômico alterado coloca as instituições brasileiras sob holofotes e imensa pressão:

1. O Freio na Selic

Antes da eclosão do conflito, o mercado financeiro tinha como certo um corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic na reunião do Copom dos dias 17 e 18 de março, o que a levaria a 14,5%. Agora, o consenso se desfez. A pressão inflacionária de custos reduziu a margem de manobra do Banco Central. Analistas já precificam um corte mais tímido, de apenas 0,25 p.p., ou até mesmo a manutenção da taxa básica de juros, atrasando o ciclo de afrouxamento monetário.

2. O Dilema Político da Petrobras

Para a estatal petroleira, a alta do barril infla suas receitas em dólar, mas gera um problema interno agudo: a defasagem de preços. Atualmente, os preços praticados internamente estão significativamente defasados em relação ao mercado internacional — 41% no diesel e 17% na gasolina.

Por estarmos em um ano eleitoral (2026), o congelamento artificial de preços surge como uma tentação política de curto prazo para segurar a inflação e a insatisfação popular. No entanto, vender combustível abaixo da paridade internacional gera prejuízos imediatos à companhia e afugenta acionistas.

O paradoxo do Câmbio e a resposta global

Para tentar frear o estrago na economia mundial, potências globais se articulam. Os ministros de Energia do G7 discutem a liberação coordenada de 300 a 400 milhões de barris de reservas de emergência, o que representaria um esforço massivo para estabilizar os preços.

Curiosamente, para o Brasil, a instabilidade global gerou um efeito colateral inesperado sobre o câmbio. Diante do risco geopolítico e incertezas nos Estados Unidos, grandes investidores buscam diversificar seus portfólios fora da economia americana. Esse movimento de capitais tem favorecido moedas de países emergentes, inclusive o Real. Ainda que a previsão para o fechamento do dólar no final de 2026 esteja em R$ 5,55, a moeda nacional encontra neste paradoxo um fôlego temporário em meio à crise.