A inauguração de um centro de tradução para a língua Tikuna em Tabatinga, na região da Tríplice Fronteira (Brasil, Peru e Colômbia), está gerando reações intensas de movimentos sociais e ativistas. O escritório, mantido pela organização religiosa Testemunhas de Jeová, visa traduzir materiais bíblicos para converter povos originários. Contudo, a presença dessa denominação americana em territórios ancestrais preocupa lideranças que defendem a preservação cultural indígena.
Centro de Tradução e Seu Objetivo
O prédio de dois andares, localizado no centro de Tabatinga, foi inaugurado após um período de obras que durou oito meses. Segundo relatos locais, cerca de 300 pessoas trabalharam voluntariamente na construção. O foco da unidade é o portal JW.ORG, utilizado para treinar pregadores e facilitar o batismo de indígenas na doutrina da organização.
Apesar da apresentação como uma iniciativa de inclusão linguística, o novo centro enfrenta críticas contundentes do Movimento de Ajuda às Vítimas das Testemunhas de Jeová (MAV-TJ). O líder do movimento, Yann Rodrigues, considera a chegada da organização um “retrocesso” para as tradições do povo Tikuna.
Impactos na Cultura e na Comunidade Indígena
As críticas se concentram em dois principais pilares da doutrina: a proibição de transfusões de sangue e a política de ostracismo social contra ex-membros. Para Yann Rodrigues, essas normas podem ser fatais em comunidades indígenas, onde a vida é pautada pelo coletivismo. “As doutrinas extremistas podem levar à morte de indígenas. O pecado em aceitar transfusão de sangue e a discriminação contra ex-membros atacam diretamente a vida comunitária e familiar desses povos”, alerta Rodrigues.
Além disso, o ativista argumenta que a imposição de padrões culturais estrangeiros compromete a identidade originária. Ele defende que os indígenas precisam de proteção territorial e demarcação, não da imposição de costumes americanos.
Cobrança de Ações e Vigilância
Diante desse cenário, o MAV-TJ exige uma atuação firme de órgãos como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério dos Povos Indígenas. O objetivo é impedir que denominações religiosas possam avançar de forma predatória em áreas vulneráveis. O ativista informou que pretende protocolar denúncias formais para investigar a atuação da organização em Tabatinga.
Em suma, a disputa na região reflete um embate mais amplo sobre a autonomia dos povos indígenas frente ao proselitismo religioso na Amazônia.

